01.02.13

PAÍS DO CARNAVAL \ Com 1,5 trilhão eu não trabalharia nunca mais

O Mato Grosso é um estado com território sete vezes maior que a Inglaterra, é o principal exportador de grãos do país e graças ao regime de cotas, também será sede da Copa do Mundo de 2014. São pouco mais de 3 milhões de brasileiros vivendo suas vidas por essas bandas, 3 milhões de pessoas dependendo de serviços públicos que, como todos sabem, são inacreditavelmente precários. Um deles, que nem é o mais importante, é especialmente precário: as rodovias intermunicipais. Vejam vocês.

O discurso é conhecido, o sujeito paga seus impostos e o dinheiro, que deveria ser usado para benfeitorias em todas as áreas, vai parar na tesouraria de algum clube influente de corruptos. Sempre foi assim, o Brasil é um país conhecido por não levar as coisas muito a sério. Algo cultural, radicado em nossa colonização exploratória, é o que alguém tentaria explicar. Tão enraizado que ninguém mais se sente lesado com nada, pagam a conta para evitar maiores aborrecimentos. Melhor aproveitar o carnaval e não se envolver com toda essa ladroeira. O povo entendeu, sem precisar raciocinar, que é assim que a banda toca por aqui.

Mas permita que eu explique porque comecei falando de Mato Grosso antes que eu me perca no meio do caminho.

A BR-163, que corta o estado de norte a sul, é a principal rodovia utilizada para escoar a produção agrícola de um estado conhecido como o celeiro do Brasil. A estrada, que também possibilita que cidadãos exerçam seu direito de ir e vir para onde bem entenderem, viveu – e ainda vive – anos de completo abandono. Sei disso porque viajo nela desde os meus… bem, viajo nela há muito tempo. Passei de tudo um pouco em 15 anos de idas e vindas. Já troquei pneu em pista sem acostamento, já rodei trechos com mais de 100 quilômetros sem passar da terceira marcha, já fiquei atolado em chiqueiros disfarçados de desvios, já ajudei a empurrar ônibus atolado, já  até precisei pegar carona em boleia de caminhão. Pelas minhas contas já fui do norte ao sul do estado mais de 200 vezes, então é com alguma propriedade que posso perguntar: cadê a porra das benfeitorias na minha estrada?

Incompetente que é, o Governo Federal decidiu que vai privatizar a BR-163. Cuidar de BR dá muito trabalho, melhor se livrar do abacaxi. E sem dar muitas explicações vai abrir concorrência e permitirá que as empresas vencedoras das concessões reformem a estrada e instalem suas malditas praças de pedágio. Para cruzar os mais de 800 quilômetros de extensão o viajante será condicionado a parar em 9 pontos estrategicamente localizados para pagar por algo que já lhe foi devidamente cobrado. Ou vai me dizer que você não sabia que no valor da gasolina está incluído um imposto destinado à manutenção das estradas? Não sei bem o que diz Carta Magna brasileira nesses casos, mas suspeito que o direito de ir e vir é cláusula pétrea na Constituição Federal. Enfim, não vem ao caso.

O problema do Brasil não é a falta de dinheiro, bem pelo contrário, é o excesso dele. Estamos muito longe de falir, somos grandes demais para quebrar.

Então a imprensa noticiou o plano de privatização do Governo e foi perguntar à população o que ela acha dos pedágios. E todos, sem exceção, em uníssono, disseram como um bando de mulas hipnotizadas:

- Ah, se a estrada melhorar, achamos uma boa ideia. O que não dá é para continuar com estrada esburacada e sem sinalização.

Santo Deus, não! Não é uma boa ideia. Tá errado! Tá muito errado. O Governo Federal arrecadou 1,5 trilhão de reais em impostos no ano passado, isso dá 125 bilhões por mês – 125 bi-lhões. Do momento que você começou a ler este texto até agora, o Governo arrecadou alguma coisa perto de 5 milhões – e isso imaginando que você leia bem rápido. Para se ter uma ideia, esse trilhão e meio é todo o PIB da Suíça, que é a 19ª economia do mundo. Com esse dinheiro daria para fazer estrada decente daqui até a Marte, devidamente duplicada, com posto telefônico e cobertura wi-fi a cada 500 metros. O lixo de estrada que adorna a paisagem do cerrado brasileiro nada mais é do que a migalha que sobra dessa cifra estratosférica que pagamos aos cofres públicos todos os anos. Como é que alguém pode aparecer na televisão e falar que é legal cobrarem alguma coisa além dos R$ 1.500.000.000.000,00?

Deixem de ser idiotas de uma vez por todas. Quando aparecem na televisão, seus animais, não digam que pagariam duas vezes. Não digam nada, até porque a reportagem deve ser encomendada também. Fiquem quietos, calem a boca, apenas. Sabe quando vemos aquelas pessoas imaginando o que fariam caso acertassem na loteria? Sempre tem alguma toupeira que diz: Com essa fortuna eu não trabalharia nunca mais. Pois é, o Governo também pensa assim.

2 Responses to Com 1,5 trilhão eu não trabalharia nunca mais


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